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Sobre quando a Daspu bateu de frente (e com gosto) com a "gente de bem" no MASP
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Maio 2019

“Vários desfiles já pagaram muito para usar esse espaço. Então aproveitem essa arquitetura da Lina Bo Bardi, pensem no que essa mulher foi revolucionária. E transem com o corrimão, transem com a escada, ocupem esse lugar. Puta no museu de arte”

A fala é de Elaine Bortolanza, cabeça da marca de moda & coletivo Daspu, para um grupo de artistas/ativistas/idealistas que ocupou as oficinas do MASP durante um fim de semana e que, dali a poucos minutos, colocaria fogo nas escadarias do museu - e na cabeça dos manifestantes pró-Bolsonaro que enchiam a avenida Paulista na tarde do domingo (26.05).

Ela não está errada. O principal museu da cidade já foi cenário de alguns poucos shows de moda paulistana. Ricardo Almeida comemorou 25 anos de marca por lá em 2016. Mais recentemente, há menos de um ano, a À La Garçonne de Herchcovitch & Souza fez desfile no mezanino do lugar - que, como o da Daspu, também escorria para o quadrado de vidro do lado de fora do prédio.

Este, porém, tem a vantagem de ser muito mais orgânico e fazer parte das proposições do próprio MASP. E tem comunicação direta com Modas Brasileiras, o segundo desfile idelizado por Pietro Maria Bardi no começo dos anos 1950.
Imagens da coleção Moda Brasileira por Peter Scheier.
Biblioteca e Centro de Documentação do MASP/Instituto Moreira Salles.
Naquela época, as modelos não gozavam na escada (apesar de posarem sentadas em estátuas do século 19) mas as roupas, que seriam vendidas pelo Mappin, foram idealizadas e produzidas também nas oficinas do MASP por integrantes do recém-criado Instituto de Arte Contemporânea.

60 anos depois, Elaine comandou seu workshop com um grupo um pouco mais… heterogêneo. Batizado de Costuras criativas, o encontro fez parte da programação temática do ano do museu, Histórias das mulheres, histórias feministas.

“É a segunda vez que fazemos um processo assim. E o grupo superou qualquer expectativa. A ideia era construir as peças e discutir essa questão de peças sem gênero, de roupa de puta. E chegou uma galeria muito criativa, trans e não-binária, do rolê da engenharia têxtil ou que nem é da moda, mas tava a fim de transar com a Daspu”, conta sobre a rápida residência/resistência artística.  

Duda Breda
O resultado foi uma coleção livre, de recortes e reaproveitamentos, mais arte/indumentária da vida real do que moda. Tudo bem promíscuo - adjetivo delícia que Elaine usa um bocado para se referir à marca.

Se tem a camiseta com estampa by Laerte Coutinho, criada especialmente para elas, também tem o body que é feminino ou masculino (quem se importa?), vulvas bordadas, parangolés oiticicanos ou a calcinha para trans, que não tem a menor preocupação em disfarçar o pau.

E uma coleção que ganhou mais vida ainda quando virou confronto real.


Duda Breda

“A Paulista está lotada com essa estupidez”


Por uma dessas boas coincidências da vida, os ativistas pró-governo marcaram os seus protestos anacrônicos para o mesmo 26 de maio em que o resultado desse workshop de putas sairia para a rua. Na hora, a avenida em frente ao museu reunia uma porção de alucinados das mais variadas estirpes: cidadãos de bem, carolas de verde e amarelo, protestantes carregando a bandeira com o brasão do Brasil monárquico e representantes da TFP.

Por segurança, então, a performance que aconteceria no vão livre do MASP ficou restrito ao lado de dentro da entrada - aquele aquário de vidro cerceante das escadarias de acesso que nem estava no projeto original de Lina Bo Bardi, partidária de entregar o vazio à cidade sem barreiras.

Mas foi esse vidro que salvou o dia de se transformar em uma guerra de ideologias. A performance aconteceu dentro de uma jaula -com as bestas presas do lado de fora.

É curioso ver de perto como a frustração reprimida dessa parcela da sociedade, que inconscientemente sabe representar um ideal ultrapassado de vida, se transforma em ódio aos poucos, feito chaleira sobre o fogo à lenha.

Duda Breda
No começo, tal público verdamarelo estava achando curiosa essa movimentação no museu - algo como "olha a perfomance esquisitona”. Se divertiram com a puta levantando as ancas para a plateia e fazendo arte com uma camisinha feminina. Não se ofenderam muito com a garota bonitinha com pixo de PUTA no peito. Uns fotografavam, outros faziam lives, vários pegavam ostensivamente nos genitais - provando que essa gente de bem gosta mesmo é de putaria (ufa).

A coisa começou a esquentar quando a performance aumentou o tom de afronte. Quando surgiram meninos/meninas jogando na cara deles a sua sexualidade fluida, seus corpos desamarrados e uma capacidade de provocar apenas com a sua existência.
Duda Breda
Foi aí que quem estava do lado de lá do vidro passou a chamar os participantes da performance de bichas (ah, vá!) e urrar argumentos civilizatórios como “respeita a arte” enquanto tomavam enquadros (também civilizatórios) da Polícia Militar. Do lado de dentro, os participantes sorriam.
Duda Breda

“Foi um desfile que ativou de novo o que a passarela da Daspu fazia no início. Que sempre foi de dialogar, de criar um confronto, mas não no sentido da violência. De opor o luxo ao lixo, esse lugar do protesto, de ser uma passarela de resistência”, reflete Elaine. “Gabriela sempre gostou muito desse tema, da passarela passeata”.

A citada é a patrona do movimento, Gabriela Leite. Prostituta e ativista falecida em 2013, ela fundou a Daspu em 2005, já causando confusão e confronto com a Daslu, butique de luxo de Eliana Tranchesi que ainda estava em alta então.

Na época do histórico primeiro desfile da marca, que aconteceu na rua Augusta em 2006, a society paulistana ficou ouriçadíssima com o trocadilho do nome. Isso foi antes, claro, de Tranchesi ser condenada a quase cem anos de prisão por sonegação de impostos na importação de grifes importadas. A Daslu desapareceu do mapa, mas as putas continuam pelas ruas.

E o futuro da Daspu, como vai? Elaine conta que o ativismo está em busca de parcerias para viabilizar a marca: “esse convite do Masp deu uma impulsionada, vamos criar um nova coleção. Queremos fazer uma transa com pessoas da moda que estejam dispostas a se envolver no processo, criar um rolê coletivo”

Ou, como ela bem diz: promíscuo.

Foto do abre: Duda Breda

Diário visual: Daspu no MASP



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28.05.2019