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	<title>Calma.</title>
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	<description>Calma.</description>
	<pubDate>Mon, 30 Jan 2023 21:01:17 +0000</pubDate>
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		<title>Home principal</title>
				
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		<pubDate>Fri, 16 Nov 2018 03:48:44 +0000</pubDate>

		<dc:creator>Calma.</dc:creator>

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		<title>Eduardo Viveiros</title>
				
		<link>https://calma.ltd/Eduardo-Viveiros</link>

		<pubDate>Fri, 03 Aug 2018 00:16:26 +0000</pubDate>

		<dc:creator>Calma.</dc:creator>

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Eduardo Viveiros é jornalista.&#38;nbsp;</description>
		
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		<title>Newsletter</title>
				
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		<pubDate>Tue, 17 Jul 2018 02:09:18 +0000</pubDate>

		<dc:creator>Calma.</dc:creator>

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	Tenho uma newsletter&#38;nbsp;, mas eu prefiro chamar de cartas. 
Te escrevo no máximo uma vez por semana. 
E uso o Substack para isso.


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		<title>Três boys que conheci em Roma e você deveria prestar atenção </title>
				
		<link>https://calma.ltd/Tres-boys-que-conheci-em-Roma-e-voce-deveria-prestar-atencao</link>

		<pubDate>Mon, 30 Jan 2023 21:01:17 +0000</pubDate>

		<dc:creator>Calma.</dc:creator>

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&#60;img width="2048" height="1382" width_o="2048" height_o="1382" data-src="https://freight.cargo.site/t/original/i/86947d2f87c5961ceb29267e0d6de7134ba86e344ba7b28eb338138c4dbddcd1/gamsnote3.png" data-mid="166701587" border="0"  src="https://freight.cargo.site/w/1000/i/86947d2f87c5961ceb29267e0d6de7134ba86e344ba7b28eb338138c4dbddcd1/gamsnote3.png" /&#62;


	
	Três boys que conheci em Roma e você deveria prestar atenção, sim.&#38;nbsp;
—
	

	
	

Uma das maiores novidades do meu pós-quarentena foi passar a acompanhar in loco a AltaRoma, semana de moda italiana que acontece em Roma (oh, really) há vinte anos. 
A cidade pode soar como um destino pouco fashionista para quem está acostumade a olhar para a moda italiana sob a ótica onipresente e viciada de Milão. No entanto, antes do boom do prêt-à-porter transformar Milão na imensidade que é hoje, a capital italiana era origem e destino do que eles chamam de Alta Moda (mais ou menos o equivalente à Couture parisiense, você sabe, os ateliês e o sob medida, mas sem tantas regras tipo D.O.C como os franceses). Em algum momento da década de 1960, Milão e Roma fizeram braço de ferro para ver quem era a grande cittá da moda italiana — mas como o mundo obviamente preferiu o prêt-à-porter, mais fácil e mais barato e “mais democrático”, Roma ficou para trás — mesmo sendo cidade natal da Fendi, Valentino, Bulgari, Brioni etc.
AltaRoma vem num esforço de fazer esse revamp de olhares desde o começo dos anos 2000, e não sem grandes poderes envolvidos — a atual presidente do comitê que organiza e controla a semana de moda é Silvia Venturini Fendi, terceira geração da casa italiana que leva seu sobrenome —&#38;nbsp;incluindo associações da indústria e o governo local, que se juntam para financiar a história toda, como deveria acontecer em semanas de moda sérias e realmente interessadas em fazer um cenário acontecer. 

A estratégia é boa — e o que me interessa bastante: enquanto deixa os grandes players se exibindo em Milão, AltaRoma dedica-se a guiar, apresentar e fomentar pequenos, médios e novos designers, não só da capital mas de vários polos espalhados pela Itália.
É aqui que acontece a final do Who’s on Next, concurso anual promovido pelo evento junto da Vogue Italia. AltaRoma abre espaço de passarela para novas marcas mas também, em peso parecido, para desfiles-apresentação de jovens que estão se formando em faculdades de moda. Faz também o showcase Rome is my Runway, desfile coletivo à la Casa de Criadores, além de montar showroom paralelo à passarela com seleção de iniciativas de pequenas empresas, muitas com um pensamento em moda minimamente sustentável — outro dos fatores de atenção do evento. 

Ou seja, o foco não é só na capital, mas em re-construir o Made in Italy de forma sustentável e com nomes jovens que dificilmente ganhariam meio olhar se se metessem em Milão. O resultado pode ser um bocado irregular às vezes, como em qualquer iniciativa voltada a novos pensamentos, mas o esforço é essencial.&#38;nbsp;
Estou escrevendo esse contexto imenso daqui de Roma — a edição de inverno 2024 acontece pelos próximos três dias — para repescar três nomes interessantes que conheci por aqui nas outras edições que participei, em 2022. 

	

	
	
	&#60;img width="1264" height="1588" width_o="1264" height_o="1588" data-src="https://freight.cargo.site/t/original/i/854b14ef38c63e2dc48ada315198808c8344848c872c649612cf5bfbcc610397/gamsnote2.png" data-mid="166700797" border="0"  src="https://freight.cargo.site/w/1000/i/854b14ef38c63e2dc48ada315198808c8344848c872c649612cf5bfbcc610397/gamsnote2.png" /&#62;&#60;img width="1268" height="1594" width_o="1268" height_o="1594" data-src="https://freight.cargo.site/t/original/i/eaa17165f9ed1a3ce8337fd496820aedd09b7cb1cfc97d147fa6b49af6779148/gasmnote1.png" data-mid="166700798" border="0"  src="https://freight.cargo.site/w/1000/i/eaa17165f9ed1a3ce8337fd496820aedd09b7cb1cfc97d147fa6b49af6779148/gasmnote1.png" /&#62;&#38;nbsp;Francesco Saverio Costanzo

	
	
	Gams NoteQuando conheci Alessandro Marchetto, em janeiro do ano passado, era um gurizito formado há pouco pelo Instituto Marangoni de Milão que estava no showroom da AltaRoma apresentando a primeira coleção da sua Gams Note, fundada em 2021. Com foco na moda masculina jovem, Marchetto trabalha códigos de alfaiataria e de referências diretas de uniformes com um olho em uma lembrança de infância idealizada e o outro numa ligeira pegada queer. Tanto que o logo da Gams revê o brasão dos escoteiros (outra das suas refs costumeiras) com a ilustração de um casal de meninos de cueca em meio a flores e um guaxinim; #fofo. Ele curte (e eu também) uma modelagem boxy, mas com seus segredos. E, apesar da pegada ligeiramente vintage, não é dado (nem tem idade para) rememórias anacrônicas — é tudo bem fresh. Tanto que, seis meses depois, Alessandro foi premiado no Who’s on Next de 2022 com consultoria e acompanhamento de um semestre pela Pitti Imagine, a organizadora da Pitti Uomo.

&#38;gt;&#38;gt; instagram.com/gamsnote

	
	&#60;img width="4160" height="6240" width_o="4160" height_o="6240" data-src="https://freight.cargo.site/t/original/i/d4e910afe93e1e2744448cf3cec201eb61234c0f88ed10eca9615812395aa4cb/simoncracker_fw22_23-081.jpg" data-mid="166701447" border="0"  src="https://freight.cargo.site/w/1000/i/d4e910afe93e1e2744448cf3cec201eb61234c0f88ed10eca9615812395aa4cb/simoncracker_fw22_23-081.jpg" /&#62;&#60;img width="3642" height="5463" width_o="3642" height_o="5463" data-src="https://freight.cargo.site/t/original/i/a6790a5c5ff9ee01b59fccb12a563eb5df3d56ceb549eaf5a5f1fd48522eb061/simoncracker_fw22_23-063.jpg" data-mid="166701448" border="0"  src="https://freight.cargo.site/w/1000/i/a6790a5c5ff9ee01b59fccb12a563eb5df3d56ceb549eaf5a5f1fd48522eb061/simoncracker_fw22_23-063.jpg" /&#62;Divulgação
	

	Simon CrackerSimone Botte mexe na sua Simon Cracker há uma década. Meio marca meio laboratório, a marca se aplica no upcycling de forma pouco tediosa — e sem entregar roupas que parecem apenas feitas no liquidificador do acaso. Simone tem um pensamento (e um acabamento) pesado de sartoria, enquanto oferece uma estética quasi-punk que me faria colocá-lo facilmente como herdeiro melhorado de Vivienne Westwood (#RIP), se fosse o caso de chamar um novo diretor-criativo para a marca da gata (eu mesmo espero que ela feche, aliás). Ele inclusive trabalha com conceitos próprios interessantes e cheio dos jogos de palavras: como o brokentailoring e o PUNKINDNESS, que eu amo — define ele: “o que é mais punk, hoje em dia, do que ser uma pessoa minimamente autêntica e consciente?”, misturando o DIY dos 1970s com Kawaii. No desfile que vi, e que me impactou, Botte misturou alfaiataria com vestidos de noivas antigos, retalhados e reconstruídos, em mil looks agênero. Já fez outra apresentação depois disso, mas seu Instagram é uma profusão de ideias tão maciça que parece que é uma coleção por semana — se bobear, é isso mesmo. Eu fiz uma entrevista com Simone para a L’Officiel, dá pra ler aqui. 

&#38;gt;&#38;gt; instagram.com/simoncracker
	
	
&#38;nbsp;
	&#60;img width="1080" height="836" width_o="1080" height_o="836" data-src="https://freight.cargo.site/t/original/i/62537908c08aba6670f6f47566c2c6291b0b6d62f324bb678b2850095ab0d87d/20221208_CASA-PRETI-for-Vanessa-Beecroft_VB94--2022-Palazzo-Abatellis-Palermo-copyright-Vanessa-Beecroft--2022-6.jpg" data-mid="166700367" border="0"  src="https://freight.cargo.site/w/1000/i/62537908c08aba6670f6f47566c2c6291b0b6d62f324bb678b2850095ab0d87d/20221208_CASA-PRETI-for-Vanessa-Beecroft_VB94--2022-Palazzo-Abatellis-Palermo-copyright-Vanessa-Beecroft--2022-6.jpg" /&#62;
&#60;img width="1080" height="836" width_o="1080" height_o="836" data-src="https://freight.cargo.site/t/original/i/03fb45fc206e7f69cbe368140b71422c416347b42ea9817870feb6d2dc67f087/20221208_CASA-PRETI-for-Vanessa-Beecroft_VB94--2022-Palazzo-Abatellis-Palermo-copyright-Vanessa-Beecroft--2022-1.jpg" data-mid="166700502" border="0"  src="https://freight.cargo.site/w/1000/i/03fb45fc206e7f69cbe368140b71422c416347b42ea9817870feb6d2dc67f087/20221208_CASA-PRETI-for-Vanessa-Beecroft_VB94--2022-Palazzo-Abatellis-Palermo-copyright-Vanessa-Beecroft--2022-1.jpg" /&#62;Divulgação

	
	

	
	
	Casa PretiDe Palermo, capital da Sicília, Mattia Piazza é o único dos três que é realmente recorrente no calendário da AltaRoma — sua Casa Preti abre a passarela amanhã, inclusive. Quando falamos pela primeira vez, depois de contar que estudou canto operístico antes de cair na moda, definiu a marca como “catalisadora dos seus desejos”. Os desejos ali são muitos, mas caem diretamente em vontades de estruturas volumosas e street — seja do moletom seja das capas imensas e vinílicas. Às vezes ele surge romântico, às vezes urbano e debochado — mas sempre com um pensamento bom para amarrar por trás, provando a minha teoria de que pessoas nascidas em ilhas tem um quê especial. A última coleção, refletia sobre um mundo em que o poder estava na mão das mulheres, chegando até à figura de Santa Rita de Cássia, reverência tradicional dos palermitanos. A de amanhã, diz ele, continua em casa e olha para as figuras femininas que passaram pela sua vida. Tantos desejos e tantas mulheres botaram a Casa Preti para assinar, em dezembro, figurino para performance/instalação de Vanessa Beecroft (!). Reunindo participantes locais que vestiam túnicas brancas inspiradas em freiras beneditinas, em meio a rostos-escultura de cerâmica que a gata gosta tanto de fazer, VB94 aconteceu no Palazzo Abatellis, em Palermo. Não sei você, mas eu acho isso um crivo do tamanho do mundo.

&#38;gt;&#38;gt; instagram.com/casapreti

	
	
	!31.01.2023
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	</item>
		
		
	<item>
		<title>O Brasil precisa reinventar suas semanas de moda (ou deixá-las para trás)</title>
				
		<link>https://calma.ltd/O-Brasil-precisa-reinventar-suas-semanas-de-moda-ou-deixa-las-para</link>

		<pubDate>Fri, 27 Jan 2023 15:41:59 +0000</pubDate>

		<dc:creator>Calma.</dc:creator>

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&#60;img width="2190" height="2000" width_o="2190" height_o="2000" data-src="https://freight.cargo.site/t/original/i/2afc38d4a45a956c25e9b59e38b2a7fa49659274a3ed1449eb60bed1ef35cb72/semanasdebr.png" data-mid="166371206" border="0"  src="https://freight.cargo.site/w/1000/i/2afc38d4a45a956c25e9b59e38b2a7fa49659274a3ed1449eb60bed1ef35cb72/semanasdebr.png" /&#62;
O Brasil precisa reinventar suas semanas de moda (ou deixá-las para trás)—
	
	

Bora encarar o elefante na sala. A moda brasileira tem cultivado uma pulsão de morte em relação às suas semanas de moda. O conceito freudiano desenha bem esse sentimento sádico de se agarrar a algo que vai contra sua permanência, à autoerradicação inconsciente, à saudade de algo que ficou na memória (normalmente embelezada pelo distanciamento histórico e histérico). Psicanálise não é meu mundo de habla (a Vivian Whiteman fica no guichê ao lado), mas acho que deu pra sacar o ponto. &#38;nbsp;
Não é de hoje que esse sentimento paira no ar. Entre todas as camadas envolvidas no real processo dos desfiles, as reclamações e insatisfações são as mesmas, em desabafos sinceros — e repetidas, temporada após temporada. Mas foi nesse retorno do pós-quarentena que os ânimos têm aumentado; especialmente pela geração mais nova de criatives que surgiu e reformulou os calendários nos últimos anos. 
EU SEI que esse texto é discussão nível Dia da Marmota, mas segue comigo. 

O mercado é enxuto, a economia não ajuda, o Brasil muito menos (o preço do pano né menina, nem se fale) mas todo mundo segue tentando… chegar onde? Essa pergunta nunca ganha uma resposta muito certeira quando pergunto às pessoas por que elas seguem desfilando. É um desejo, um reforço de imagem, uma massagem no ego (e isso não é necessariamente ruim), mas a estratégia sempre parece acontecer pelo motor da inércia — ou seja, porque sempre foi assim. Podemos contar nos dedos quem realmente consegue ir para a passarela com a conta mais ou menos paga e tirar dali alguma vantagem — se nem os likes do Instagram compensam mais.&#38;nbsp;

E daí sempre me pergunto: para que seguir assim?

Talvez esteja na hora de encarar esse assunto longe da força motriz da rotina. E perceber que, no simulacro de mercado de moda que temos nas mãos, cada vez mais encolhido, deveríamos parar de nos espelhar na estratégia de gigantes como Paris ou Milão et aliae.&#38;nbsp;Claro, sim, é uma tradição completamente amarrada a esse tipo de criação e pensamentos da roupa como manifestação artística, política, comercial, o que for. Mas faz sentido, para a nossa realidade, se não movimenta nem dinheiro nem holofotes para quem se apresenta?&#38;nbsp;
Por aqui, esse formato deixou de fazer certo sentido há mais uma década -- mais ou menos quando o mundo real parou de prestar atenção frenética na criação nacional e seus big shows. A moda hoje é de quem grita mais, então diria que é um momento de passar a gritar melhor&#38;nbsp;— e do nosso jeito. Para que seguir presos a um formato que Worth inventou no século 19 e os franceses juraram ser legal? &#38;nbsp;Se o Sul Global está em um momento de expansão e inspiração e quiçá dominação, deveria parar de beber nas velhas iniciativas do Norte. Parar de seguir formatos que não cabem no nosso clube.&#38;nbsp;

Ponto e vírgula.&#38;nbsp;

	

	&#60;img width="2190" height="2000" width_o="2190" height_o="2000" data-src="https://freight.cargo.site/t/original/i/a11e88fe130d9c0983b687d379e194fc589f1f175614b24d56254850e4b2886e/semanasdebr2.png" data-mid="166371329" border="0"  src="https://freight.cargo.site/w/1000/i/a11e88fe130d9c0983b687d379e194fc589f1f175614b24d56254850e4b2886e/semanasdebr2.png" /&#62;
	
	

	
	
	Romantismos revolucionários à parte, porém, a nossa maior questão não é o formato — mas os eventos pelo país que se baseiam nele e que, em maior ou menor medida, vão patinando. Especialmente (e inevitavelmente, por ser (ainda) o maior) o SPFW, mas não só. 
O público realmente interessado é ínfimo, a mídia é parca e os influenciadores, desinteressados. Daí se constroem semanas de moda com 30, 40 apresentações que seguem girando no vazio feito parafuso espanado — enquanto marcas e estilistas passam o pires para repartir a planilha do patrocinador, segundo critérios invisíveis, ao mesmo tempo em que se comunicam majoritariamente com quem já os conhecem, através dos seus próprios canais além-passarela. 
Shows imensos não têm uso se a plateia está cheia de olhares vazios. Foi assim que os maiores nomes de outrora desapareceram (ou desistiram) na última década. E é assim que os menores seguem se esforçando para tentar se encaixar no formato que derreteu a geração anterior (e a anterior àquela), um ritual que acaba com qualquer ideia de permanência ou sentimento de continuidade. 

	
	
	&#60;img width="2190" height="1813" width_o="2190" height_o="1813" data-src="https://freight.cargo.site/t/original/i/e1e7fabea85ecbb3bd4ba0b227a3b7cca64e164c5d089ad442b67f1452f42e60/semansdebr3.png" data-mid="166371413" border="0"  src="https://freight.cargo.site/w/1000/i/e1e7fabea85ecbb3bd4ba0b227a3b7cca64e164c5d089ad442b67f1452f42e60/semansdebr3.png" /&#62;Imagens todas: cortesia de um tempo gasto bebendo no Midjourney

	O SPFW, se agora diz querer ganhar dinheiro e pintar-se como evento de entretenimento, deveria investir em novas ideias de apresentação que sejam mais sedutoras para o público que hoje atinge e não mortifiquem quem (ainda) quer estar lá dentro. Moda é indústria, não recreação. Se for para tratar como tal, que seja de uma maneira interessante. Assim como o Brasil Eco Fashion Week acerta ao cravar num assunto específico e o DFB não tenta disfarçar que a a moda é apenas um dos seus pontos de interesse.&#38;nbsp;Assim como alguns integrantes da Casa de Criadores se beneficiariam imenso se migrassem para fora do gesso da passarela, enquanto o evento abraça outros formatos de criação e discussão, como já vem se mexendo para fazer.  É preciso desinchar para se manter saudável. Destrinchar. Focar. Largar o formato de semana de moda e se espalhar. Não faltam possibilidades.
Temos por aí uma leva de nomes altamente interessante e interessada querendo falar, criar e produzir, apesar dos perrengues. Ela precisa ser cutucada, espezinhada, incentivada a evoluir. Não se deixar agarrada a eventos apaziguadores onde tudo é "meio bom". Não se fomenta um mercado nivelando a régua naturalmente para baixo. Em paralelo, essa mesma trupe deveria vigorar-se em perceber e questionar iniciativas que só as vampirizam e pouco oferecem em troca — e criar seus próprios rolês. Já passamos da fase de ocupar espaços, é o momento de inventar novos. E fazer o (pouco) investimento que há escoar para quem precisa. 
O que falta mesmo — e eu crivo, mesmo — é consciência de classe, de união. É preciso construir uma base para não ir de base. Essa nova geração precisa se falar, se juntar, parar de rebater o recalque dos antigos e construir uma nova realidade própria e não-dependente. Precisa perceber que não podem se tratar como competidores se todos estão sendo atropelados por um fator comum. Semanas de moda não-horizontalizadas não reverberam na realidade pulverizada de um novo mundo colaborativo. Mas isso só depende de quem está vindo. Não dá para esperar as mudanças sentados.&#38;nbsp;

Superemos.Feliz ano novo.
	
	
&#38;nbsp;
	
	
	,27.01.2023
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	</item>
		
		
	<item>
		<title>Na corrida pela normalidade, a moda vai resvalando no negacionismo</title>
				
		<link>https://calma.ltd/Na-corrida-pela-normalidade-a-moda-vai-resvalando-no-negacionismo</link>

		<pubDate>Wed, 07 Oct 2020 01:59:22 +0000</pubDate>

		<dc:creator>Calma.</dc:creator>

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		<description>
	&#60;img width="2190" height="1169" width_o="2190" height_o="1169" data-src="https://freight.cargo.site/t/original/i/bb0083333d0e3efd0bc6961ca33b9954df49f87b1a250885fcf0ca0a4f4aeef6/maskschiap.png" data-mid="84843855" border="0"  src="https://freight.cargo.site/w/1000/i/bb0083333d0e3efd0bc6961ca33b9954df49f87b1a250885fcf0ca0a4f4aeef6/maskschiap.png" /&#62;
Na corrida pela normalidade, a moda vai resvalando no negacionismo
:Verão 2021
—
	
	

Na segunda-feira (05.10), Donald Trump chocou o planeta (risos) ao sair do hospital, onde passou dias internado, e tirar a sua máscara ao chegar no pórtico da Casa Branca. Menos de 24 horas depois, no encerramento das semanas de moda internacionais, Nicolas Ghesquière foi aplaudido ao sair do backstage e tirar a sua máscara para agradecer às palmas no desfile da Louis Vuitton, em Paris.

O primeiro, definitivamente infectado pelo coronavírus, se esforçava em criar um storytelling de muita valentia em plena tentativa de reeleição. O segundo, que nós torcemos para se manter saudável e não tem grandes preocupações com seu cargo de diretor criativo, não pôde ficar sem mostrar o rostinho bonito para dar seu “merci” à audiência phygital. Mas qual a diferença entre os dois e por que o primeiro é detonado e o segundo, passa como se tudo bem?&#38;nbsp;

	

	&#60;img width="360" height="360" width_o="360" height_o="360" data-src="https://freight.cargo.site/t/original/i/4369b55f128d857edffca923b8ea5c47cce895f1a32f92c445b04ded30832e36/masktrump.gif" data-mid="84844264" border="0"  src="https://freight.cargo.site/w/360/i/4369b55f128d857edffca923b8ea5c47cce895f1a32f92c445b04ded30832e36/masktrump.gif" /&#62;
	&#60;img width="360" height="360" width_o="360" height_o="360" data-src="https://freight.cargo.site/t/original/i/bfde7c7c02d4ea47c789fae329e8202707016f2ddc2eaa51c6af353b7dd25544/maskghesq.gif" data-mid="84844229" border="0"  src="https://freight.cargo.site/w/360/i/bfde7c7c02d4ea47c789fae329e8202707016f2ddc2eaa51c6af353b7dd25544/maskghesq.gif" /&#62;

	

	Comparando-se as cenas, o efeito semiótico soa-me semelhante: ambos parecem mostrar que vivem numa bolha de fantasia, que não precisa dar conta de uma pandemia de escala mundial e ainda fora do controle. Ambos tiram suas máscaras apenas por razões de autoimagem. Trump, obviamente, representa um ideal personalista e egoísta que mede consequências sob um prisma muito próprio; enquanto Ghesquière confia num ambiente cheio de regulações. O americano executou um teatro meticuloso, o francês talvez tenha feito sem planejar. Mas, para quem vê de fora, sem contexto, o descuido no trato pode soar semelhante. 

E, na moda, puxa uma questão que esteve no ar durante este último mês: qual a mensagem que os grandes players da moda (e não só a figura deste estilista em específico, não me entenda mal) parecem querer passar com os desfiles que não deixaram de acontecer?
Claro, todos bravatearam os seus infinitos protocolos de segurança, com os envolvidos testados exaustivamente, dos castings à provas de roupa à fila final, muitos EPIs e regras da OMS e siglas mil, aliadas à audiência presencial diminuída (mas nem de longe diminuta). Boa parte das marcas, mui corretamente, trocou os grandes shows por vídeos produzidos em baixa escala de equipe ou outras formas alternativas, repensando formas de trabalho e de divulgação, de acordo com o respeito ao contexto pandêmico que atravessamos este ano inteiro.&#38;nbsp;
Mas na imagem final da passarela, trends e silhuetas à parte, onde foi parar a mínima conexão com a realidade? A moda desencanou de vez de refletir sobre o mundo lá/aqui fora? A “influência do streetwear” caricata será o ápice final do crossover entre as calçadas e as semanas de desfiles? 
Considero especialmente sintomático que quase ninguém tenha colocado máscaras de proteção na passarela. Não quero dizer, veja, que a indústria deva cair na armadilha da “glamourização” gratuita &#38;amp; cretina do uso do EPI, com versões couture do acessório. Isso a gente sabe que já aconteceu e acontece nas butiques, tanto aqui quanto lá, prontamente entregues aos fashion addicts. 
Mas para uma indústria que vem se esforçando tanto para não perder os parcos vínculos de interesse que ainda mantém com os seres humanos normais em quarentena, a imagem que fica é que… está tudo bem? A tendência para o verão 2021 é um emoji feliz e vacinado, de roupas novas — mas não se sabe muito bem de onde tiraram isso. 
O limiar entre a cretinização da pandemia e a naturalização do comportamento de proteção é, sim, bem tênue neste caso. Porém, a alta moda resolveu se manter no caminho mais antigo e mais seguro (para ela) do “vamos fingir que vivemos num mundo à parte que vocês aí fora desejam entrar”. Será que é assim mesmo? Eu arrisco dizer que não.
	

	
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	Divulgação

	
	Como sempre, há exceções. A Schiaparelli refletiu o momento em uma construção d’ouro, que abre este texto. Galliano “asfixiou” com tule seu casting da Maison Margiela, assim como Thom Browne e a Kenzo — que não serve para nada, mas pelo menos é uma referência clara à necessidade de uma barreira contra a pandemia. Balenciaga e Marni, ambas se mostrando na rua,&#38;nbsp;puxaram para cima as golas à guisa de máscara enquanto Rick Owens colocou as máscaras nas circustâncias do seu mundo estético. Mesma coisa da queridinha-do-momento Marine Serre e de Christian Siriano, do turco Bora Aksu, do malinês XulyBët,&#38;nbsp;do japonês Takahiro Miyashita e da estreia de Reuben Selby. Para um universo de quase 300 coleções… é um número ridículo de exemplos.

(Inclusive, pra que tanta roupa? Pra que tanto desfile? Pra que tantas entradas? Pra que etc)
O grande modelo prático de como a imagem pode soar contextualizada, sem perder a ternura, ficou nas mãos da Eckhaus Latta. Sem entrar no mérito da moda proposta, todas as pessoas que desfilaram estavam de rosto coberto — algumas com máscara de tecido, outras com máscaras de farmácia, outras com N95. Mas todas, frise-se, cobertas. Tanto para proteção no momento do show quanto para mostrar que no futuro, sim, o cuidado continuará no seu armário como item mandatório.
Já é a segunda temporada internacional de desfiles que acontece durante a pandemia. Na primeira, estávamos todos mergulhados em diferentes níveis de confusão, muitos jurando (e eu me incluo aqui) que tudo seria revisto e o mundo melhoraria. Agora, todos queremos emergir ao normal. Mas que normal é esse que esses desfiles estão se empenhando para ignorar? A realidade virou de cabeça para baixo e nós estamos num esforço para que tudo continue igual ao que era antes?
A indústria da moda já naturalizou tantas coisas daninhas por tanto tempo — da exclusão racial ao heroin chic — que não me parece fazer sentido abrir mão do seu papel social e da sua potência educativa logo neste momento em que Trumps e Bolsonaros propagandeiam que o absurdo em que vivemos não é tão absurdo assim. A comunicação está dispersa por fake news e fake cliques, fazendo com que aquela máxima do "uma imagem vale mais do que mil palavras" se torne mais forte e mais rápida. Diabos, eu mesmo comecei este texto colocando Trump e Ghesquière no mesmo patamar imagético, pense que loucura.&#38;nbsp;

Não vamos parar de usar máscaras tão cedo. Não temos vacina, a OMS não deixou, o Átila tampouco. Já ultrapassamos a marca de um milhão de mortos. Será que não é o caso de o mundinho se atinar à narrativa da realidade - nos desfiles, editoriais, revistas, campanhas -, a mesma que fez com que termômetros aparecessem nas lojas todas?
Há uma grande e perigosa diferença entre escapismo e negacionismo. Se as máscaras são usadas apenas fora dos holofotes e a pandemia vai se tornando um assunto que fica para escanteio, a moda corre o risco de ir se aliando, mesmo que sem querer, ao segundo caminho.
	
	
&#38;nbsp;
	
	
	!07.10.2020
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		<title>Aprendendo a ajustar expectativas com Raf e Miuccia</title>
				
		<link>https://calma.ltd/Aprendendo-a-ajustar-expectativas-com-Raf-e-Miuccia</link>

		<pubDate>Thu, 24 Sep 2020 19:47:28 +0000</pubDate>

		<dc:creator>Calma.</dc:creator>

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Aprendendo a ajustar expectativas com Raf &#38;amp; Miuccia
:
PRADAVerão 2021
—
	
	

Estamos vivendo a morte do aforismo, né? As coisas estão mais rápidas, mais incertas, mais curtas, mais grossas e cada vez mais… precisando de reflexão. É esse o suco que tirei desse limão-cravo que foi o desfile da Prada de hoje.
Eu costumo afirmar que a moda está acostumada a ter Miuccia como a sua figura professoral — ame ou odeie, concorde ou discorde, no final alguma coisa será absorvida. Seja no jeito low profile de ser e vestir e falar e maquiar, seja no pensamento antigo (mas não necessariamente desatualizado) de encarar a cultura geral como influência ou (principalmente) no uso da exploração quase irônica do mau gosto e da feiúra como marca estética desde as suas primeiras coleções. A aula de hoje foi exatamente essa: bora baixar a bola das expectativas, criançada? 
Eu também vinha afirmando (por falar em aforismos…) que este desfile era a única coisa que poderia salvar 2020 de ser um desastre completo. Um ardor que foi crescendo desde o anúncio de que Raf Simons assumiria a cocriação da marca, em abril — era o casamento perfeito de duas cabeças aparentemente idênticas que poderia dar em… sei lá o que. De tão próximos os dois, o resultado era tão óbvio quanto incógnito. 
A entrada de Raf na Prada é uma daquelas situações ainda novas, de um diretor criativo trabalhando ao lado da criadora original. Não há substituições e novos caminhos terão necessariamente que passar pelos anteriores. Para ele também é um caso inédito. Quando passou pela Jil Sander e, principalmente, pela Christian Dior, Raf encarou, com relativa liberdade, marcas que tinham códigos históricos marcantes. Na Calvin Klein, a liberdade de criação era teoricamente maior enquanto os códigos eram quase incipientes. Agora, ao lado de Miuccia, pulou numa fogueira que combina códigos fortíssimos e uma liberdade que vai só até a segunda página. 
Eu daria um dedo para ver um streaming aberto com essa dupla trabalhando a quatro mãos. Afinal, são dois criadores extremamente cerebrais, com maneiras peculiares de moldar o mercado da moda e charmosamente cabeças-duras. Mas com o acesso ao backstage cada vez mais cheio de barreiras em tempos de pandemia e desfiles virtuais, só nos resta analisar o filtro dos resultados. E aí o jogo é entender até onde ele tentou ir e até onde ela cedeu — mais as dificuldades de produção com o cenário inédito de oficinas restritas, ateliês esvaziados, álcool gel e restrições mil. 
	
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	Os estudos em comum dos dois estilistas se mostraram presentes: a mulher que entende que o cérebro é mais sexy que o corpo, por exemplo, e a paixão pelo uso e proposição do uniforme e do esportivo. 

Raf trouxe a saia que faz sempre, Miuccia veio com as calças que ama. Ela entrou com as estampas da Prada (que nem acho tão interessantes, mas isso é problema meu), ele meteu os silks gráficos de referências intelectualoides (que me têm como cadelinha) criados com Peter de Potter. 

Ele tomou o triângulo da Prada e transformou em iconografias interessantes. Ela pegou as modelagens de capas e trenchs que ele fetichiza e construiu no náilon reciclado, presos com as mãos como a nova clutch de uma mulher que saiu correndo para ir ali. 

Os anos 1990 dela, os anos 2000 dele… É quase um bingo inevitável. 
	
	

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Divulgação Prada

Dentro de tudo, o que me atrai especialmente são as sobressaias e tops com bolsas acopladas. É um jeito de reforçar que, num ano que "todos nós ficamos em casa", o domínio das handbags&#38;nbsp;(e, por consequência, da velha moda)  parece que vai ficando para trás. E são reflexos de um jeito contemporâneo de pensar uma moda pós-utilitária — para esse novo anormal, ela tem que ter mais que funcionalidade, tem que ter propósito. São acepções paralelas mas, repare, razoavelmente distintas.
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	&#60;img width="3335" height="5002" width_o="3335" height_o="5002" data-src="https://freight.cargo.site/t/original/i/d08df57def92b99e41591bc50489dc99f2dd7ab0c60801f0e5937eed76056c4f/Prada-Donna-SS21_033.JPG" data-mid="83698748" border="0"  src="https://freight.cargo.site/w/1000/i/d08df57def92b99e41591bc50489dc99f2dd7ab0c60801f0e5937eed76056c4f/Prada-Donna-SS21_033.JPG" /&#62;

&#60;img width="3160" height="4740" width_o="3160" height_o="4740" data-src="https://freight.cargo.site/t/original/i/818877e1110936f10b33c77208ea03abdc4fdf111cb306a36978d40463eeed89/Prada-Donna-SS21_032.JPG" data-mid="83698746" border="0"  src="https://freight.cargo.site/w/1000/i/818877e1110936f10b33c77208ea03abdc4fdf111cb306a36978d40463eeed89/Prada-Donna-SS21_032.JPG" /&#62;Divulgação Prada

	


	
	Passamos por uma época em que desfiles desinteressantes em transmissões mirabolantes estão tentando dar sentido a uma terra arrasada. Por isso minhas expectativas por esta dupla eram altas e, também por isso, a minha fantasia foi aterrada com um calma aí. Eu vinha tratando como a salvação de um sentimento que nem tem mais importância e dei de cara com o começo de algo que não tem definição clara.
Mas aí é que está. Assim como 2020 é um epílogo de um tempo que não volta mais, este desfile foi um prólogo de um momento que ainda não chegou. E por isso foi, se não uma salvação, um momento ultrarrelevante do ano — para além do factóide-estreia-do-estilista. 

A dupla (se sobreviver ao bate-cabeça criativo e à possível venda da Prada ao grupo Kering que comenta-se nos bastidores) está ali, sabiamente mirando no longo prazo — e foi o que eu vi reforçado na aula de hoje. Não precisamos de resultados para ontem. Podemos dar o tempo que os processos merecem e vai ser muito mais interessante ver essa evolução acontecendo com um passo por vez. 
Parece uma contradição mas, se estamos vivendo o apocalipse diariamente, é muito mais sábio parar de gastar fichas à toa. É bom ver pelo menos uma parcela da "alta moda" pensando assim. &#38;nbsp;
	
&#38;nbsp;&#38;nbsp;
	
	
	...24.09.2020
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	<item>
		<title>Desfilão de Passagem; diário visual</title>
				
		<link>https://calma.ltd/Desfilao-de-Passagem-diario-visual</link>

		<pubDate>Fri, 29 Mar 2019 23:24:50 +0000</pubDate>

		<dc:creator>Calma.</dc:creator>

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		<description>Desfilão de Passagem; 
diário visual:


Março 2019— 

	
    
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...
09.03.2019

+ DIÁRIOS VISUAIS:</description>
		
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		<title>À La Garçonne 01.2019; diário visual</title>
				
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		<pubDate>Thu, 28 Mar 2019 19:50:12 +0000</pubDate>

		<dc:creator>Calma.</dc:creator>

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		<description>À La Garçonne 01.2019; 
diário visual:


Março 2019— 

	
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18.03.2019

+ DIÁRIOS VISUAIS:</description>
		
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		<title>Sobre Ernesto Neto na Pinacoteca e como a arte e o olhar pra dentro podem nos ajudar a sobreviver aos anos 2020</title>
				
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		<pubDate>Sat, 30 Mar 2019 04:31:23 +0000</pubDate>

		<dc:creator>Calma.</dc:creator>

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Sobre Ernesto Neto na Pinacoteca e como a arte e o olhar pra dentro podem nos ajudar a sobreviver aos anos 2020
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SOPRO
Março 2019
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O Brasil está doente. Estamos todos. E a cura passa por uma flor vermelha em formato de gota, repleta de ervas sagradas, suspensa em uma monumental árvore feita de crochê no octógono da Pinacoteca em São Paulo. 

Isto é, se você acreditar nela. 

Cura Bra Cura Té. A obra monumental faz parte de Sopro, retrospectiva da carreira de Ernesto Neto, com suas construções&#38;nbsp; que envolvem especiarias, limalhas de ferro, poliamidas e equilíbrios, dos anos 1980 para cá. 

Eu também estou doente. E esta semana confrontei uma gripe para dar conta de um desses momentos que não acontecem sempre: um papo com Neto em visita guiada pré-abertura da exposição. 
“Ele fala bastante”, alertaram-me. E com razão: a primeira intervenção se estendeu por duas horas, num indo e vindo de teorias e causos e des-serenidades e músicas que transformaram o papo em quase performance. 

A obra de Neto sempre teve um quê biológico-imersivo: as meias recheadas de bolinhas de chumbo, os pif-paf-pofs de especiarias, as construções que convidam o público a se confortar em balanços de crochê ou meditar sob uma árvore vermelha recendendo a sálvia e cravo e louro. Tudo, inclusive, espalhado pelo prédio da Pinacoteca nestes próximos meses. 

Mas o momento mais importante é a Cura, a árvore, o ápice de um artista que vem se voltando cada vez mais para o interior, às tradições, ao inconcreto. É também uma ação de escala - se antes você tinha a opção de apenas olhar a obra externamente, no livre arbítrio de adentrá-la ou não, agora isso acabou. O gigante está ali sobre e sob ti, ao teu redor, o interior da obra é você. 

E isso tem muito a ver com essa fase - moral &#38;amp; social &#38;amp; espiritual - que estamos vivendo desde 2012. Não há mais a opção de se manter alheio, a situação já te engolfou para dentro e você é ela. 

“As coisas estão em eterno estado de acontecimento, atrás de um equilíbrio”, o artista reflete, meias vermelhas pisando no chão azul da Cura, e falando sobre a construção e a desconstrução do próprio trabalho. 

Esta, diz, é a missão necessária para sobreviver aos próximos anos: (des)construirmo-nos. Tudo o que está acontecendo é reflexo do medo e raiva do sistema dominante, “uma reação natural contra o poder do amor”. Para Neto, diria que o segredo é um apenas: viver. 

“Na nossa cultura fala-se muito sobre a morte, diviniza-se a morte e se esquece da vida, não se fala da alegria do viver. O mundo tem poesia. E a gente está embarreirando a poesia de viver”

Ele aponta que nossos grandes problemas são simbolizados pelo Tronco - aquele mesmo onde os africanos escravizados eram castigados há pouquíssimo tempo, que pode simbolizar imaterialmente tudo o que atrapalha nossa moral: do capitalismo opressor ao Olavo de Carvalho, da depressão maciça contemporânea à glorificação da bad vibe como estampa de camiseta em fast fashion. 

Estamos envenenados, ele afirma convicto, por culpa do Tronco - que está ali, no centro da obra, como elemento dissonante. “A natureza do homem é ser tranquilo, se ele não está… tem algo muito errado”. E a cura - palavra chave da vez e, arrisco, da próxima década inteira - vem das nossas ancestralidades. 

Na noite anterior, estive no show do Kamasi Washington - jazzista millennial californiano, que toca um saxofone tenor (outro sopro) rasgado filhote direto de John Coltrane. E que, assim como ele, encarna uma figura quase divinatória, de acordo com os movimentos pretos da nossa época. 

Mas a revolução aqui, apesar de cantada em músicas como Fists of Fury (“we will no longer ask for justice / instead we will take our retribution”), vem por conta do amor. “Não importa a cor da sua pele, nós somos iguais e eu te amo”, Kamasi pregou em algum momento da apresentação. “A gente precisa pensar nas nossas semelhanças”, ecoaria Neto na manhã seguinte. 

Se a ancestralidade do músico é óbvia e legítima (#lugardefala), a do artista plástico (branco-classe-média-do-Leblon) é difusa no discurso, não por isso menos legítimo.

Nós brasileiros, ele explica, estamos numa situação que nos trás grande vantagem e desvantagem. Não somos europeus, não precisamos carregar tal karma negativo acumulado por séculos. Mas fomos colonizados por eles - à força -, numa miscigenação que só faz o tal Tronco ficar mais forte e raivoso. 

Por outro lado, essa mistura de origens desemboca num açude de referências que é nosso grande mérito, “uma graça muito especial”: a mescla de culturas africanas e indígenas (e, vá lá, europeias) que dão numa sabedoria única, milenar, pé no chão, num contato com a natureza que só pode nos libertar e… curar. 

Há alguns anos, Neto tem frequentado e absorvido os ensinamentos dos Huni Kuin, comunidade indígena do Acre, que reforçou muito sua espiritualidade e suas visões de vida. O que reflete também, é claro, na sua obra: todas as ideias da humanidade como um ser coletivo dentro de um planeta/organismo, reforçadas pela cultura daquele povo, estão espalhadas dentro das suas construções arvorescas colossais recentes - tanto esta Cura como a Gaia Mother Tree, apresentada em Zurique em 2018.

A simbologia aqui (entre tantas) fica por conta da gota do primeiro parágrafo, que engole o Tronco, o falo envernizado e agressivo, fazendo-o desaparecer - e levando com ele todas as questões que puxam a moral do país para baixo - ao mesmo tempo em que, inevitável, tem sua serenidade orgânica deformada.&#38;nbsp;
É sexual (o que não é?), é agressividade de tez poética, é a força do feminino engolfando a sisudez bruta do patriarcado que está no poder desde sempre.&#38;nbsp;

“Para querer a cura, a gente tem que se libertar dessas raizes históricas. É doloroso mesmo, é essa fase que estamos passando", diz, prometendo a destruição do tronco em fases ritualísticas até o fim da exposição, antes de clamar: "busquemos as culturas indígenas e afro para um exercício de cura, de equilíbrio”.

“Renascer é necessário”, afinal, é o mote dessa conversa toda. Assim como é mote apropriado pela sensacional cineasta anglo-nigeriana Jenn Nkiru - amiga de Kamasi e que tinha vídeo com esse título exposto no MASP até a semana passada (e que você deveria assistir). 
No museu, Jenn participou de conversa poucos dias atrás e mandou a seguinte linha de pensamento: “Eu estou mais interessada em entender minha liberdade do que fazer outras pessoas entenderem minha humanidade”. O assunto de Jenn, claro, é a diáspora afro, a luta da identidade deles e tudo o que envolve essa situação. Mas, dadas as devidas proporções dos privilégios e dos contextos, pode ser também a de todos nós. 

É esse, talvez, o segredo. Assim como nas invocações de Kamasi, assim como nas divagações de Ernesto. É uma guerra branda, ainda que eficiente. É a busca da paz exterior pela paz interior. "Calma, cara!", diz o artista, numa frase que inclusive poderia ser slogan deste site: "Não fique procurando o novo a todo momento. Procure a tranquilidade que o novo vai aparecer".&#38;nbsp;


Você pode achar o papo de Ernesto talvez um pouco ripongo-zona-sul demais. Talvez até um pouco simplista para um 2019 tão cheio de nuances sociais urgentes. Mas há de se dizer que não soa com razão? 
Estamos todos, vejo ao meu redor e aqui dentro, em busca de uma espiritualidade que nos mova melhor, um terreiro, uns cristais, uma alimentação menos pasteurizada, um creme mais natural, uma rede social a menos, um grupo de pessoas que se ouçam e que se apoiem; seja o que for preciso para aplacar essa ansiedade que nos rodeia. E não é de hoje.&#38;nbsp;

O mundo e o Brasil enfrentam uma gripe chata, meta-parafraseando Mario de Andrade, (desculpe-me), num sentimento meio catarrento. Respira-se mal, a cabeça pesa, o corpo dói e a vitalidade desaparece.&#38;nbsp;
Mas há soluções que agridem menos e, como diz Ernesto, "a cultura nos separa, mas a natureza nos une". Não sei você aí, mas eu já troquei o paracetamol 400 mg pelo chá de cúrcuma. E vou bem feliz com isso.&#38;nbsp;
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29.03.2019
-O papo com Ernesto Neto rolou a convite da Havaianas, patrocinadora da exposição.

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